Capítulo 3 - Captive Freights - Parte 3
Freight Yard
Entre as leituras preferidas de
Barney se destacavam os livros de ficção, sendo que recentemente lera sobre o
“efeito borboleta”. Como um fato do passado pode modificar todo o futuro. Se
tivesse chegado mais cedo, a porta eletrônica de entrada não estivesse
emperrada, o outro setor não tivesse dado problemas e ainda, ter sido mais ágil
no banheiro, talvez não estivesse naquele lugar que para ele denotava extrema
hostilidade. A vida é feita de opções e o segurança certamente concretizou sua
linha de possibilidades. Se foi melhor assim, realmente não sabia.
Não era uma das pessoas mais
cultas na equipe de segurança, todavia se esforçava para não ficar sem palavras
em uma eventual conversa com algum cientista que cruzasse nos elevadores. O
segurança era tido como um homem alternativo. Animado na quantidade certa,
razoavelmente sociável, disciplinado e outras características que um complexo
que a Black Mesa queria, ao menos para contratar um guarda.
Passaram-se dez ou quinze minutos
até Barney recobrar a consciência e perceber que sua cabeça estava delicadamente
apoiada em um caioxete no qual chegara a babar em cima. Ainda de bruços no
chão seus olhos se esbugalharam como se quisessem sair do seu rosto. Observava
a sala como um bobo, mas ao mesmo tempo animado em ver que permanecia seguro,
embora não soubesse ao certo como havia chegado ali.
Franziu o rosto e retirou o
capacete por alguns instantes, massageando a cabeça enquanto tateava algumas
caixas posicionadas sob uma estante metálica. O quarto era pequeno, se
resumindo em apenas meros caixotes, barris e um ou dois galões de combustível.
Estava zonzo. Andou com as pernas tortas até a porta, que lembrara de ter
barrado com uma robusta caixa de madeira e pôs um dos ouvidos nela. Estava
estranhamente tranquilo. Não sentia tamanha calma desde que entrara naquele
elevador com os cientistas antes de tudo ocorrer.
Alguns ruídos de rádios e vozes
grossas saiam no outro lado da porta. Com os ouvidos colados nela deu
um sorriso pálido em meio do rosto sujo e cheio de cortes, passando lentamente
a mão pela maçaneta fria. No entanto, por certo motivo que não sabia ele a
retirou abruptamente, como se houvesse tocado em uma chama. Algo dizia que o
que havia no outro lado da porta talvez não fosse totalmente hostil,
entretanto, em mesma proporção não muito seguro.
Barney titubeou e recuou alguns
centímetros, pegando o revólver que trazia consigo. Se ele fosse um militar em
missão para resgatar e matar qualquer ser de alta periculosidade, levaria um
grande susto se um possível sobrevivente cruzasse a porta de surpresa. E se
estivesse infectado? Por outro lado os HECU, como o próprio nome já
especificava, era um grupo de militares treinados para lidar com tais
situações. Não eram neuróticos sádicos com uma metralhadora do Rambo em mãos.
Ainda sim, Calhoun abriu um pouco a porta e viu o que tinha através de uma
fresta.
Um time de aproximadamente quatro
soldados guardavam duas SUV da Black Mesa enquanto verificavam os corpos de
alguns cientistas mortos. Estavam em um pequeno estacionamento a céu aberto.
Poderia ser patético, pensou consigo mesmo, porém sentia-se tão envergonhado e
tão medroso em pedir ajuda para os soldados, que o momento chegava a ser
equiparado a uma vez que pedira uma menina que amava em namoro. Coçou a testa,
deixou o revólver em mãos e afastou os caixotes. Os militares vestiam boinas,
máscaras de gás e carregavam fuzis e sub metralhadoras. Se ele que já tinha
dado um trabalho árduo para os alienígenas, apenas com as armas que achara no caminho
e seu treinamento de segurança, certamente os HECU não teriam problemas em
varrer toda esta sujeira do laboratório.
O guarda enfim assoprou tenso com
o momento pouco favorável e formidável, embora de aparenta tranquilidade. Mesmo
assim sentia que se tivesse aberto a porta rapidamente, estaria morto, então
apenas girou a maçaneta calmamente e caminhou para o lado externo. Mantinha a
pose de segurança, com uma face que não expressava nenhuma emoção a não ser de
uma demonstração de força exacerbada, como um lutador de boxe entrando em um ringue. Carregava a arma
no coldre e trazia consigo o peito estufado sob um colete sujo. De longe dava
para notar que passara por maus momentos. Tentou esquecer dos soldados que
fuzilaram aquele cientista, já que eles poderiam ter se confundido.
Os militares encararam Barney e
este ficou parado, erguendo as mãos ao céu de uma maneira extremamente lenta,
acompanhando seus passos que se davam em direção ao grupo. Os HECU
permaneciam calados, sendo que um deles engatilhou a arma e apontou para cima. O
segurança instantaneamente raciocinou que eles diriam para se apresentar e
pediriam posteriormente que largasse as armas. Logo, trariam uma maca o
levariam para um helicóptero e fim. A Black Mesa que resolveria sozinha os seus
problemas de indenização. As empresas de seguros iriam falir aos montes e o
governo teria de dar um jeito de acobertar e explicar este choque. Riu em seus
pensamentos. Ai está a desvantagem em manter um laboratório de grandes
proporções em sigilo.
Segundos depois outro soldado,
que pela boina deduziu que era o comandante do grupo, engatilhou o fuzil com
lançador de granado acoplado e erguendo ele ao céu. Deu um disparo para o alto
cujo som ecoou em todo o recinto. Os demais militares não apenas fizeram o
mesmo como apontaram as armas para Calhoun. Este que não sabia em qual direção
iria, quase escorregou no chão, sem entender o que fizera de tão errado. Apenas
percebeu que estava sob fogo quando um disparo passou perto dele e acertou a
porta que havia entrado. Por sorte estava perto dela então entrou no quarto
novamente.
“-Vocês o viram? Ele passou por
aquela porta. Sabem da nossa missão”. -Exclamou uma voz no outro lado.
Em seguida vários sons abafados e
proporcionalmente graves se aproximaram. “Nossa missão?” Calhoun não entendeu o
sentido da frase. Refletiu e engoliu seco. O segurança não tinha dúvidas e
possuía vários fatores ao favor de sua hipótese, como o fato do helicóptero
estar circulando no complexo enquanto chegava no seu trabalho, os corpos
sendo jogados pelos esgotos e enfim, vários outros. Finalizou que a missão não
era de evacuar os sobreviventes e matar aqueles alienígenas, portanto a de
exterminar todos que estavam presentes ali. Era tudo óbvio. Se a Black Mesa era
secreta, nada podia sair dali. Nenhuma informação, nenhum objeto e por fim,
nenhuma pessoa. Como o governo poderia explicar um laboratório sendo invadido
por seres de outra dimensão que ninguém (ao menos pensava), sabia da
existência?
O segurança repousou novamente as
mãos sob o caixote, embora aquilo não fosse deter nem uma criança. Observou
exasperado o quarto, tocando tudo e revirando as prateleiras até achar um galão
vermelho de combustível que estava cheio. Estava tão nervoso que seus lábios
tremiam, mal conseguindo lançar uma palavra no ambiente. Posicionou o galão na
porta e pegou um explosivo acionado por controle remoto que trazia desde que
estava no esgoto. Lembrou-se daquilo apenas quando o controle quase se soltou
do seu cinto.
Calhoun retirou o explosivo
de dentro de uma pequena bolsa acoplada com o cinto e a colocou atrás do galão.
Deixou o caixote em frente a porta para que os soldados pensassem que era
ingênuo demais em preparar uma armadilha, além de oferecer um pouco de
dificuldade.
A maçaneta girou velozmente,
todavia o pesado caixote impedia a abertura completa da porta. Um soldado deu uma
coronhada, exclamando um xingamento na atmosfera e em seguida Barney escutou um
coice que foi dado de maneira tão violenta que seu estômago embrulhou. Os
golpes dados na abertura faziam pequenas caixas que estavam nas prateleiras caírem
no chão. Torcia para que o controle funcionasse, caso contrário teria de
disparar no galão com a arma se tivesse tempo
Suspirou e lambeu o suor que
percorria em seu rosto, passando pelos lábios. A caixa foi aos poucos sendo arrastada
e a porta se abria. Conseguia via as máscaras dos militares que encaravam
Barney raivosamente, tentando apontar as armas no espaço já aberto. Suas mãos
suavam e já via as sombras dos soldados. Quando um deles pós a cabeça para fora
e mirou a submetralhadora para Calhoun, este não hesitou e apertou o botão.
Viu apenas uma bola de fogo
engolindo as caixas de madeira, uma parte da prateleira que estava próxima e o
corpo de um HECU. O brilho da explosão o cegou por alguns momentos. A deflagração
da bomba foi tão forte que voou para trás, fazendo a arma e o controle que
trazia em suas mãos voarem para longe. Não ouvia mais nada, exceto um ligeiro
zunido ao longe. A visão embaçou e pensou que fosse desmaiar novamente.
Quase que cegamente voltou a
tatear o ambiente a procura de seus equipamentos, porém pegava apenas restos de
metais, plásticos e madeira queimados que exalavam um cheiro forte. Piscava e
passava as mãos nos seus olhos que lacrimejavam a todo o instante, entretanto
via apenas uma chama em volta de uma labareda que se erguia ao teto partindo do
galão de combustível que agora se resumia apenas em um pedaço de plástico
queimado que não somava mais do que três centímetros de altura. A porta, cuja
parede da borda estava queimada e em lugares mais distantes do centro da
explosão completamente rachada, tinha um grande rombo no meio. Com os olhos cheio de lágrimas, sem ouvir nada e
com um som estridente dentro de sua cabeça, completamente tonto, percorreu na direção
do revólver que caira no chão. Tropeçou em uma estante e em
seguida chutou um caixote quebrado enquanto caminhava parcialmente e
temporariamente cego até a saída no qual estava dominada por uma chama ardente.
Os soldados até não poderiam entrar, todavia ele não podia sair.
Apenas percebeu o estrago que fez
quando as chamas da porta perderam força por instantes, deixando-o ver um
defunto de um HECU que como ele, saltou longe. O corpo estava completamente
carbonizado e com um buraco na altura do peito assim como uma na parte lateral da
máscara. Caso o HECU morto não estivesse com o braço quase fora do tronco, iria
estar idêntico a um soldado de plástico queimado.
A audição de Calhoun aos poucos
foi voltando, bem como a sua visão e agora conseguia manter o equilíbrio,
embora a cabeça estivesse doendo violentamente, mesmo que o capacete tivesse
amortecido o impacto. O piso de cimento estava completamente rachado. Sussurrou
algumas onomatopéias de espanto e surpresa que nem ele próprio entendia.
Jogou algumas caixas de metal na
direção do fogo e pateticamente ficou abanando as mãos afim de apagar a chama
ou ao menos enfraquecê-la, xingando a si próprio em não ter colocado o galão um
pouco mais longe. Lembrou-se vagamente de uma Lei de Murphy dos fuzileiros
navais: “As coisas simples são sempre difíceis”. Esboçou um sorriso solitário enquanto atravessava. Fagulhas queimavam a sua camisa azul que agora era apenas
um trapo com rasgos maiores que os de um dedo indicador. Deparou-se com o corpo
de outro soldado no mesmo estado do outro que vira anteriormente, porém a roupa
deste ainda pegava fogo e percebendo que ele carregava duas granadas no seu cinto
e ao seu lado havia um fuzil M4 de calibre 5,56 unido com um lançador de
granadas. Lembrava-se que tinha pego um quando atirara nos três soldados nos
andares inferiores, porém estava tão exausto em usar que parecia estar carregando uma
centena de quilos de chumbo.
Calhoun agachou-se no
estacionamento sem nenhuma proteção e engatilhou a arma, observando atentamente
as duas SUV. Ofegante ele tentava ver qualquer sinal de movimento ou apenas
ouvir uma respiração acelerada que não fosse a dele. Não poderia ter matado
todos, tendo em vista que faltavam dois.
De repente uma submetralhadora
surgiu no capo branco do veículo. A arma brilhava contra a luz do sol ardente
do Novo México e enfim uma saraivada de disparos saíram dela, sendo que em seguida um soldado
armado com uma espingarda saltou para fora da SUV também disparando contra
Barney. O segurança que pegara em um fuzil somente duas ou três vezes na vida deitou-se
no chão e prontamente respondeu os tiros. O soldado saíra correndo pela lateral
enquanto atirava, no entanto Calhoun acertou sua perna na região da coxa,
fazendo o HECU rodopiar em 180 graus ao mesmo tempo em que seu corpo servira de
alvo para o segurança. O sangue esvoaçou pelas paredes até o homem dar uma cambalhota
no chão, cair morto e largar sua arma para longe.
O sujeito da boina que estava
escondido covardemente atrás da SUV, agachou-se diante da traseira do veículo e
jogou uma granada na direção de Barney. Em pânico o segurança afastou-se do
explosivo e sentou-se em um portão no final da estrada do estacionamento.
Estava segurando os joelhos, tal como uma criança com medo de escuro que está
sozinha em casa, porém enquanto se esquivava levara um tiro na barriga. Por
sorte o colete havia segurado o projétil, mas a dor que sentia era quase a de
um soco em forma de faca. A pressão fez o estômago de Calhoun amolecer.
Sentou-se em frente ao portão
metálico ao mesmo tempo que escutava passos duros se aproximando. A silhueta de um homem alto
chegava cada vez mais perto até Barney poder ver um rosto de queixo quadrado e
musculoso, com uma mochila nas costas e portando uma SMG com um cinto de
utilidades cheio de granadas. O militar riu da fraqueza do indivíduo que agora estava acuado como um cão. O HECU tinha a felicidade
estampada no rosto.
Barney sentiu o cheiro da morte.
O pânico era tanto que quando tentou dizer uma palavra sua boca se fechou
automaticamente, todavia tateando as costas viu que ainda tinha uma pistola que permanecia no cinto há tempos. Sem que o homem percebesse seu movimento, passou as mãos nele e destravou. O soldado se preparava para atirar,
no entanto o segurança sacou a arma e abruptamente acertou vários disparos na
cabeça e no peito do sujeito que caiu seco no chão, gemendo muito
silenciosamente e sem lançar sequer um grito. Calhoun verificou rapidamente o
corpo do HECU e suspirou. Não entendia qual missão era aquela, mas de qualquer
maneira o patriotismo caíra em esquecimento. Ao ver a face dos soldados mortos,
balançou negativamente a cabeça, afinal eram apenas jovens com uma vida pela
frente. Barney não tinha culpa.
Observou o ambiente e percebeu
que estava em um estacionamento, provavelmente um que pertencia ao setor de vagões que carregavam e descarregavam equipamentos, ferramentas e entre
outros utensílios. Um complexo como a Black Mesa exigia um setor
dedicado apenas a isso, então havia ali dezenas de quilômetros de trilhos de
trem e uma quantidade imensa de vagões que carregavam em seus containeres
toneladas de objetos diariamente. Vangloriou-se em trabalhar em uma empresa que
tinha tudo isso, mas se perguntou como e onde tudo aquilo iria terminar. O
estacionamento não era muito pequeno, na frente das SUV havia uma pista com
asfalto ligando dois portões que estavam fechados. Notou que acabara de sair de
uma grande construção.
Enquanto caminhava de um lado
para o outro procurando uma saída, alguém estourou uma janela. Os tiros zuniram
e se chocavam nas paredes de uma maneira silenciosa, fazendo Barney se esquivar
novamente dos projéteis, pulando em seguida para a traseira da SUV. As balas
perfuravam toda a lataria, transformando-a em uma peneira. Um vidro foi
estourado, fazendo estilhaços caírem no rosto do segurança, posteriormente os pneus foram atingidos
culminando em um pequeno rebaixamento na suspensão do carro. Barney já pensava
que estava sendo alvo de uma metralhadora .50, no entanto ainda sim retirou o
cartucho do fuzil e verificou o quanto tinha de munição. Havia o bastante. Os
tiros cessaram e o segurança aproveitou, esticando a cabeça ainda protegido no chão. Viu um vulto passando tão ligeiramente em uma janela no alto de um
beco que quase não percebera o soldado recarregando a arma. Barney disparava
pequenas rajadas para não perder a mira e o equilíbrio. Continuava atirando ao
mesmo tempo que saia detrás da SUV e correndo em direção de um beco com um latão de lixo
e alguns pneus que formavam uma pequena escada que possibilitavam a sua
escalada até a janela de onde vinha os disparos.
O soldado aparecera novamente na
janela procurando Barney, mas o segurança já estava perto dele, quase no lado da janela. Mirou a arma na direção da abertura e pressionou o gatilho.
Ouviu o corpo do HECU se chocando no chão e observou a arma caindo pela janela, quase se chocando em seu rosto, batendo no latão de lixo e lançando
um som estridente no lugar até finalmente chegar ao chão. Calhoun apenas pegou
o cartucho de munição do rifle e colocou em seu cinto.
Após atingir a janela, tomando
cautela para não cair, viu o defunto do soldado sob uma poça de sangue com dois
buracos de tiro bem destacados em meio do peito. O orifício expelia o líquido
vermelho que delineava um caminho até o chão de azulejo xadrez preto e branco. Fez
uma breve análise do cômodo e percebeu que estava em um pequeno escritório,
cujas paredes estavam ligeiramente ensanguentadas em determinados pontos, assim
como poças de sangue inusitadas que permaneciam em meio do ambiente. Apesar
disso não haviam corpos, sendo que os únicos sinais de que aquele quarto já
teve a presença de pessoas, era uma cadeira caída, estantes repletas de livros e
uma mesa rabiscada com uma luminária ainda apagada.
Escutava apenas os ruídos quase que inaudíveis das correntes de
energia elétrica passando pelas lâmpadas fluorescentes que felizmente iluminavam
todo o lugar. Diferente dos filmes, jogos eletrônicos e até de alguns
fliperamas que haviam na Black Mesa, não era um sobrevivente enfrentando zumbis
que saiam do chão e o lugar tampouco estava escuro como um jogo ou uma longa
metragem de horror.
Revirou algumas estantes e abriu
algumas gavetas, porém achava apenas objetos de escritório. Fazia isso sempre
olhando pelas portas, assegurando que
nenhum HECU ou outro alienígena fosse pegá-lo de surpresa, ainda que se estes
últimos subissem para a superfície certamente seriam fuzilados, então não
ofereceriam grandes problemas para ele, pelo menos naquele momento. O exército
o preocupava, tendo em vista que viu que eles tinham rádios e certamente
comunicaram a presença de um segurança neurótico que estava disparando contra
as tropas e atrapalhando a famigerada missão.
Derrubou uma pilha de livros
acidentalmente e chutou uma lata de lixo espalhando bolas de papel pelo
escritório, pouco se importando se chegasse alguém. Nos papeis estavam escritos apenas desenhos, nomes de setores, descrições de cargas e alguns cálculos.
Virou em 360 graus e pensou na hipótese de procurar um telefone, mas ao mesmo
tempo isto parecia exageradamente arriscado. Provavelmente as linhas estavam
cortadas, grampeadas ou foram afetadas pelas explosões.
Voltou a caminhar pelos
corredores, passando por alguns murais de avisos e notas importantes.
Certamente ninguém mais seguiria aqueles horários. No final avistou
uma placa azul com as bordas enferrujadas e letras escrito em branco que
sinalizavam: “Warehouse Security”. Esgueirou-se na parede e lentamente virou a
esquina e percebeu que o lugar estava vazio.
O quarto era do mesmo tamanho que o
escritório que acabara de passar. Havia algumas caixas de metal que guardavam
armas e uma grade com cadeado que as protegiam. Na sua frente uma mesa
com tampo de
madeira com uma pilha de papeis, sendo que atrás dela estava o
corpo de um segurança morto. Calhoun viu o defunto, cujo colete estava
completamente perfurado e viu que a arma estava no coldre, então concluiu
que os soldados realmente entraram atirando. Não havia mais dúvidas que a
missão era a de matar todos do complexo.
Voltou-se para o portão e com
três coronhadas arrebentou o cadeado frouxo. Seus olhos reluziam ao ver as
munições e os canos das armas, embora isto fosse nitidamente um pensamento
digno de assassinos, porém quem se importava? Estava lutando contra alienígenas
oriundos de outra dimensão e um exército de homens camuflados que se diziam
militares, disparando em tudo o que se mexesse ou respirasse com um arsenal.
Pegou um colete novo e mais
munição para a pistola e o fuzil. Enquanto verificava a sua munição, pensou no
cientista que comentou sobre o Dr. Rosenberg e logou começou a ficar preocupado em
não achar este último, mas se fosse tão importante os militares não iriam
matá-lo, portanto poderia estar escondido ou no pior dos casos preso em um
interrogatório.
Chegou até a saída da sala.
Estava em um pátio de cargas com diversos vagões espalhados com três pistas de
trens. O espaço era pouco visível devido as luzes fracas ligadas
no teto que ficavam posicionadas à uma grande altura e refletiu que teria trabalho em procurar
alguém. Colocou o fuzil na altura do peito e fez uma prévia análise de todo o
ambiente, localizando uma outra porta em frente daquela que acabara de sair.
Barney caminhava em uma parte clara e qualquer um poderia emboscá-lo ali, então
preferiu reduzir os passos e ficar escondido no escuro.
Seus pensamentos se embaralharam
quando viu um brilho amarelado na esquerda, seguido por várias onomatopéias de
tiro, desencadeando uma chuva de sons de disparo e exclamações. Os projéteis pareciam
formar traços solitários quando saiam dos canos das armas devido à falta de
luminosidade. Eles estouravam em uma caixa próxima de Barney e este retribuiu
com o disparo secundário da M4 que era o lançador de granadas. A explosão foi tão barulhenta quanto aquela da bomba de controle remoto que soltara anteriormente, só que desta vez ele estava mais longe. Sentiu seu estômago se mexer. Várias caixas
explodiram ao longe, mesmo que não soubesse ao certo a dimensão do lugar, o que
havia nele e sobretudo a quantidade de soldados que gritavam por reforços. O
rosto do segurança estava inexpressivo, procurando outra vez um lugar para se
esconder. Observou a outra porta que achara anteriormente. Um letreiro
sinalizava que lá era a “Parcel Receiving”.
A Black Mesa além
do transporte de cargas oferecia um sistema de correios. Muitos funcionários
ficavam semanas longe de suas casas, o que explicava o setor dos dormitórios,
então deveriam justificar para seus parentes que o trabalho era árduo e exigia presença 24 horas. No
entanto, parte majoritária das cartas eram destinadas à alguma empresa ou
diretamente ao governo. Havia um boato de que os que enviavam correspondências
para as suas famílias tinham as cartas lidas, modificadas ou queimadas a fim
de assegurar o sigilo dos projetos, atividades e outros detalhes do
laboratório.
Os sons dos rádios, as vozes e os
passos pesados dos soldados ecoavam ao longe. A sala estava escura e Barney não
tinha muito tempo para pensar. Achou o interruptor que revelou um cômodo
repleto de caixas de papelão espalhadas pelo piso, estantes caídas e alguns
corpos de cientistas que pelo modo que estavam posicionados e as marcas de
tiro que haviam atrás deles, certamente tinham sido enfileirados e fuzilados pelos soldados. Uma
marca de mão estava na parede branca, plausivelmente pertencente de uma pessoa que aclamara
para viver. Sentia o s
angue quente caminhar pelas suas veias de forma que se
inchavam nas suas mãos enquanto suava de ódio, compartilhando tal sentimento com pavor. Era tudo muito constante e raciocinava
com dificuldades. Agora sabia como a seleção natural permeava a mente do homem
e definia a sua personalidade. Agia pela emoção e seu objetivo máximo era apenas o de sobreviver.
Calhoun desligou a luz e se
escondeu entre as caixas. Ouvia atentamente a movimentação dos
soldados e aos poucos estes foram parando, mas Barney já sabia que eles estavam
dentro do quarto. O coturno que os fuzileiros usavam era um péssimo calçado para missões que
exigiam extremo silêncio. O segurança espiou na lateral da caixa e viu a
silhueta de dois homens e a arma de um deles verificando todo o ambiente, no
entanto seu foco era apenas o interruptor. Quando alguém chegasse perto ele
iria disparar.
Um dos soldados riu e empurrou
uma estante, enquanto seu colega tateava a parede. O suor escorria pela face do
segurança que permanecia deitado atrás da caixa, fechando a sua boca e inflando as bochechas tentando não fazer qualquer barulho. A dupla já desconfiava que era uma armadilha. Quando finalmente o
interruptor estava prestes a ser achado pelos HECU, Barney levantou-se com a
arma já apontada e com um reflexo incrível crivou o corpo do militar de tiros.
O seu parceiro que de tão surpreso e assustado quase largou a arma, então Calhoun
virou o cano do fuzil e disparou contra ele que ainda se preparava para engatilhar a
submetralhadora. O brilho que saia da ponta da M4 iluminava seu rosto e parte
da roupa camuflada do outro. Um esguicho de sangue saiu, tingindo parte da
parede. O segurança ainda com o M4 apontado, chutou as caixas que haviam no
caminho e ligou a luz novamente, verificando o grande estrago que fizera. Os dois
soldados estavam mortos e um deles segurava seus ferimentos com a mão esquerda.
Por um momento Barney pensou que estivesse vivo, no entanto o militar não
respirava.
Sem carregar qualquer receio ou
sinal de intimidação com o ambiente pouco amistoso, começou a andar pelo pátio,
afinal grandes containeres e caixas metálicas poderiam servir de esconderijo
então poderia se esquivar facilmente. Em minutos uma pessoa começou a bater
dentro de um container. Batia e berrava tão alto que escutou o eco do outro
lado do recinto.
Não precisou se esforçar muito
para abrir, puxando apenas com força uma maçaneta. No interior do vagão um
sujeito morto e outro de pé fez sinal querendo abraçar Barney como forma de
agradecimento, porém o segurança deu um passo para trás. Baixara a arma, pois
finalmente encontrou um rosto amigo. Tinha rugas bem delineadas, barba feita e
cabelos brancos similares com os do Albert Einstein, o segundo que via com o mesmo
penteado. Falava calmamente e sem atropelar as palavras, ainda que os funcionários da Black Mesa estavam sendo mortos aos montes enquanto conversavam.
O sobrevivente deu um pequeno
discurso e comentando que não era Rosenberg. A face de Barney não denotava
felicidade desde que encontrara o cientista na esperança de ser Rosenberg,
porém não escondia uma ligeira decepção. Por outro lado agora sabia que
cientistas vivos poderiam estar por ai, despediu-se do cientista com um aceno
sequer perguntando se queria acompanha-lo. Não era uma boa escolha afinal de
contas, já que o segurança certamente era visto como assassino e
alvo primário para os soldados. Por consequência preferia caminhar sozinho.
Rumou para uma porta, no entanto
antes de abrir a maçaneta os HECU arrombaram-na. Barney surpreendentemente
saltou para trás se escondendo atrás de um container e saindo da visão dos
inimigos, atirando posteriormente sua segunda e última granada do lançador. O cientista
idoso o olhava com astúcia e um olhar peculiar de admiração, como se Calhoun
fosse a solução de todos os problemas do complexo, todavia protegia a
cabeça com os braços trêmulos. Se pensou em seguir Barney, agora havia mudado
radicalmente de ideia.
A porta arrombada de metal
guardava um buraco com bordas pretas. Saia fumaça do local da explosão e uma
lâmpada caiu, lançando faíscas pelo chão. Passou entre os soldados caídos, com os peitos abertos e ficou cabisbaixo para evitar de olhar os defuntos. Até agora mantinha as mesmas perguntas: “o que está
acontecendo?”, “quem eram estes homens camuflados que duvidava não ser do
exército e se fossem, quais os motivos para matar todos?” e “como não haviam o
acertado com nenhum tiro?”. Procurava alguém mais informado para responder
toneladas de indagações, visto que o cientista que estava preso dentro daquele vagão
dificilmente saberia de algo. Se ele não estava morto deveria ter
conhecimento de fatos muito relevantes para estar somente preso.
Com mais munição achou a saída em
um corredor repleto de caixotes com panos em cima, iguais aos compartimentos do
exército. Novamente na parte externa viu outro pátio, mas este não tinha
cobertura, exceto por uma pequena parte com um discreto telhado em meio de dois
grandes vagões com containeres azul e vermelho firmemente presos, sustentados
por grandes peças de trem. No outro lado, duas roldanas gigantes barravam a
entrada de um compartimento. Havia ainda dois grandes túneis que serviam de
garagem para outros vagões.
Barney ficou como um idiota na
porta de saída, investigando tudo. Subitamente anunciaram nos comunicadores que
um alvo suspeito foi localizado. Desceu quase saltitando e virando uma esquina
com cargas, precisando de meio cartucho para acertar um fuzileiro que se esquivava entre os vagões. O coração pulsava e enquanto corria sentia que poderia voar. Uma granada foi jogada na direção
de Calhoun que sem saber o que fazer correu sem rumo, até que escutou uma explosão e os fragmentos
ricochetearam em seu capacete. O lugar rapidamente foi dominado por sons de
guerra, que se confundiam e se misturavam entre gritos e tiros. Escondeu-se
debaixo de um vagão acertando um homem no pé. Inclinando a cabeça para fora,
ainda abaixado, conseguiu alvejar um na retaguarda. Covarde? Quem ligava?
Estavam fazendo pior com todos e inclusive com os inocentes.
Demasiadamente ansioso, agora era
um contra um. Estava na parte com piso de concreto com telhados, conseguindo ver
todas as esquinas embora fosse um alvo relativamente fácil. Ao avistar seu
oponente caminhando perto de uma roldana, chutou a nuca do soldado que largou a
submetralhadora. O soldado olhou com desdém contra seu agressor que lhe acertou
uma coronhada enquanto Barney arrebentava o osso da face do HECU com a máscara
como se fosse um biscoito crocante. O fuzileiro agarrou a perna do segurança e o derrubou no chão, arrancando uma faca do cinto e desferindo golpes no ar, tentando acertar o seu oponente. O pânico de Barney só não superava a sua ousadia e adrenalina. O HECU acertou um murro no nariz de Calhoun e o derrubou no chão, preparando-se para dar o golpe final, no entanto este agarrou os braços do soldado. Ambos franziam o rosto e suavam, assemelhando-se a dois gladiadores no Coliseu. A faca aos poucos se aproximava do peito do segurança que por um momento pensou que não iria resistir, então começou a aclamar por sua vida e lembrou-se de uma oração. O soldado com os braços enrijecidos e as mãos suando e cobertas de veias sorriu até levar uma rasteira. A faca caiu em seu lado mas não dava tempo de pegar. A silhueta de Barney se ergueu contra a luz do Sol e o fuzileiro apenas sentiu o cano frio da pistola em sua têmpora. Um disparo foi dado e o rapaz caiu no chão sem vida. Não deu atenção para o corpo estirado, preferindo responder os gritos
de socorro que surgiram de modo inusitado. Partia de dentro de um dos
containeres.
Teve de arrebentar pequenas rampas de madeira para as roldanas descerem
e assim permitirem a entrada. Libertou outro funcionário que
gritava tal como o anterior que encontrara, sendo também preso dentro de um
vagão. O cientista agradeceu por mais que não fosse o
dr. Rosenberg. Barney sorriu amigavelmente e cumprimentou o cientista, a fim de
esconder novamente sua larga fúria em quase se sacrificar por um nome..um
cientista que talvez não estivesse mais vivo. Saiu do container e
sentou-se na superfície do vagão, coçando a cabeça, arrumando o colete e
recarregando todas as armas ao mesmo tempo que passava os olhos pelos HECU
mortos que tiveram suas vidas encerradas por uma missão patética. O velho cientista
deu um passo para frente, quase sentando ao lado de Calhoun.
“-Dia difícil não? Eu sei como é.
Os soldados me prenderam aqui e falaram que já voltariam. Pensei que iria
morrer. Obrigado”. -Disse o cientista com um tom confortante.
“Não, não sabe como é. Não teve
que enfrentar dezenas de alienígenas e fileiras de soldados treinados”, pensou
Barney olhando para os cascalhos que haviam no solo e massageando uma das
bochechas no qual destacavam-se um pequeno corte que sangrava. Invés de
responder, apenas observou o cientista com um sorriso e acenou com a cabeça.
Lentamente um portão se abriu na
sua frente. Deu alguns passos para trás e agachou-se, pedindo para o homem entrar outra vez dentro do compartimento. Atentamente viu um pelotão entrando
de modo resoluto, sendo que alguns caminhavam enquanto outros acobertavam. Deveriam
ser reforços e não sabia a quantidade certa, mas via muitos deles e de fato não
podia conte-los apenas com uma M4.
Quando planejava o melhor caminho
para correr, um número refletia nos seus olhos. Uma caixa de madeira continha
uma descrição, revelando que seu conteúdo era uma metralhadora montada de
calibre .50. Estava posicionada bem em frente ao pelotão. Arrebentou a caixa com chutes e tiros em uma tentativa plenamente desesperada, sem nem
saber se arma estava armada ou travada. Os soldados titubearam em atirar ao ver
um rapaz de roupa azul tentando desesperadamente abrir fogo. Quando finalmente
quebrou grande parte da caixa, apontou a .50. Estava bem lubrificada e a fita
de munição era tão grande que rastejava pelo chão.
Um HECU que gesticulava com a mão
ordenando que todos recuassem perdeu os dedos sendo a primeira baixa do time. Sem
qualquer comando, alguns simplesmente deram as costas e correram, não
conseguindo escapar ainda sim, sendo alvejados fatalmente em diversas partes do
corpo. Outros preferiam combater, servindo como patos em um jogo de tiro ao
alvo. Barney respirava com a boca, tamanha a adrenalina que sentia outra vez, fazendo as suas dores se anestesiarem. Acabara de
criar uma sinfonia com os gritos dos soldados combinados com os sons dos
disparos e os restos de bala que produziam sons sádicos de metal ao se chocar
umas com as outras. Demorou menos de dois para
desmoralizar e assassinar uma tropa inteira, não contando quantos acertou já que
não se vangloriava em fazer isso. Sobrevivência na Black Mesa, naquela situação,
exigia custos altos para um dos lados.
No momento que descia, sentiu uma
beliscada no ombro seguida por um jato de sangue no seu rosto. Virou-se e
localizou um soldado rastejando, relutando em desistir. Barney pegou a M4 que
deixara de lado provisoriamente. Facilmente fez outra vítima.
Depois de verificar que não havia
mais ninguém, fez pressão no ferimento que era pequeno porém demasiadamente
irritante. Ao olhar o colete, um buraco na região do peito o surpreendeu. Retirou a peça metálica e viu um projétil que plausivelmente era de uma arma
9mm, padrão dos seguranças. A Black Mesa concedia bons equipamentos de defesa e
agradeceu por usar aquele colete.
Filtrou todos os acontecimentos
tentando montar uma cronologia. Agora que era um atirador exímio, os HECU o
caçariam até as profundezas da Black Mesa. De peixe pequeno virou tubarão.
Entrou no túnel de trem no qual
os HECU haviam saído, quase tropeçando em uma linha ferroviária. O ambiente era
meramente sombrio, similar com becos de grandes cidades, sendo que a medida que se
afastava da entrada, a luz sumia. Achou mais munição e tomando cuidado para não
entrar em uma emboscada ou cair nos trilhos. Não duvidava que a qualquer
momento um trem zarpasse e o atropelasse.
A luz matutina começara a surgir
novamente, anunciando luz no final do túnel e fazendo-o sentir-se aliviado. Era
a saída. Um HECU pateticamente guardava o portão. Calhoun balançou a cabeça e
atirou no sujeito que caiu no chão sem nem saber de que lugar vieram os
disparos.
Quando alcançou o fim do túnel a
luz o cegou um pouco, então abaixou a M4 e como de costume analisou o ambiente. Era
apenas outro pátio com alguns vagões, não fosse um veículo totalmente peculiar
que estava no meio do local. Um blindado de guerra modelo M1 Abrams, modelo
recente que fora usado na Guerra do Golfo, estava sob uma carreta e pronto para
ser descarregado. A blindagem do veículo reluzia contra a luz do Sol e Calhoun
não o conseguia observar muito bem, então se aproximou com pouca hesitação.
No entanto um ruído que partiu do
tanque fez Barney ficar paralisado. O canhão do veículo virou-se e apontou na
direção do segurança. O rapaz sequer olhou para os lados e tampouco para o que
havia atrás dele, então consequentemente não recuou e acabou largando o seu fuzil no chão. Qualquer arma que
tivesse não faria qualquer efeito e certamente seria tão ousado como um pássaro
defendendo o ninho de uma águia. Barney abriu a boca, admirado com aquela cena
e tentando pensar que não estava dentro dela, ainda que não pudesse fazer isso.





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